Lexica prolixa (parte 1)



Há algum tempo conheci uma garota. E antes de dar vida a essa crônica verídica preciso esclarecer que provavelmente todas as impressões que tive dela estão equivocadas. Digo isso porque quando quase a conheci de verdade, ela se afastou.

Voltemos a história.  

Para que consigam imaginá-la e assim compreender essa narrativa preciso descrever aqui seus predicados. Ah! Sua imagem ainda me é vivida... seus predicados eram modestos, mas chamavam-me a atenção pela familiaridade. A pele clara, sorriso languido, meiguice típica do interior... O silêncio dela, associado a lexidade prolixa (bastante repetitiva, preciso frisar) davam ares à personagem misteriosa e intelectual. Gostava de sonhar. O que era ótimo, já que — sei que o leitor poderá interpretar a sequência dessa frase de diversas maneiras, deixo aqui a liberdade interpretativa — eu vivo a maior parte das aventuras da minha vida dentro da minha cabeça. 

Eu tinha interesse nela, mas ao mesmo tempo não tinha. Minha necessidade de retardar prazeres somada a necessidade dela de manter-se cautelosa colocou-nos em lados opostos de uma fissura sísmica. Os pretextos que usávamos para não nos vermos desenhavam a paisagem dessa ravina. As vezes eu sentia que a queria. Mas também me perguntava: Eu a quero para que finalidade?

Ora, provavelmente questões dessa mesma natureza também a atormentavam. Ela dizia que era melhor que mantivéssemos nossas posições de distância, pois temia que juntos inflamássemos a vida um do outro. Eu me contentava com esse argumento cauteloso. Era cômodo não ser eu o autor das sentenças cautelosas. Eu mantinha minha posição, distante, mas só até onde meus olhos podiam divisar.

Numa tarde de outono, quando a vista não é mais tão nítida como nos dias claros, me resignei e fiz o convite para que saíssemos para jantar. Foi uma atitude desesperada, eu sei. Mas o que eu poderia ter feito? Estávamos nos distanciando demais e nosso platonismo carecia de novas filosofias. E com algumas ressalvas, típicas de mulheres que não querem aparentar a rendição, ela aceitou a minha proposta.

Sairíamos para jantar. 

Sob as sombras do ocaso, para que nenhum olhar ou coração delator nos vigiasse, fomos comer um maravilhoso exemplar da tradicional culinária italiana — pizza.

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