Date? Não... É uma reunião.


“Eu já não te conheço de algum lugar?” – foi assim, sentada num bar no sábado à noite, ouvindo a mais clichê e mentirosa das cantadas, que Jéssica conheceu Alexandre. 

Alexandre era um tipo comum, mas com algumas ideias genuinamente diferentes, ainda que sua introdução tenha dito o contrário. Apesar de pseudomisterioso, tinha uma visão sobre a vida que chamou atenção de Jéssica, tanto pelas peculiaridades, quanto pelos absurdos. Alê, como passou a chamá-lo depois de alguns poucos minutos, achava que as diferenças básicas entre humanos e cachorros eram o ego, o humor e a capacidade de disfarçar as reais intenções. E, não por acaso, acreditava que essas intenções eram alimentar o ego, rir e transar. 

Se a ideia de Alê era disfarçar suas intenções, ele começou muito mal. As de Jéssica, porém, só ela sabia: queria beber e se divertir vendo se todo aquele papo dele conseguiria fazer com que transassem. Inclusive, ela queria beber exatamente para esquecer como esses papos costumam ser entediantes. Não é fácil, aos vinte e nove, se acostumar com a ideia de que não existe nada real que seja remotamente parecido com o homem dos sonhos. 

Alê pagou mais bebidas, pois achava que isso a deixaria mais fácil. Ele tinha razão. Beber a deixa solta e ela chegava até a rir com ele. Não que ele fosse engraçado, ela ria muito mais dele do que das suas nada originais piadas. Alê nem notava a diferença; seios são informações suficientes para o cérebro masculino, sobrava muito pouco espaço para processar outras coisas. Não que Jéssica fosse maravilhosa, mas muitos quase bêbados cheirosos queriam transar com ela. Jéssica tinha a opinião de que transar com eles era quase tão bom quanto dispensá-los, mas ocasionalmente se lembrava que ter chocolate como única fonte de serotonina não fazia bem. 

Enquanto Alê tentava impressioná-la com suas banalidades profissionais chatíssimas, começou a pensar no que ele tinha dito antes. Não somos cachorros, mas não deixamos de ser. Alê havia discursado sobre como os animais fazem o que querem sem se importar com os outros, e disse que isso seria um grande paradoxo se fosse aplicado aos humanos. Na teoria dele, se importar menos com os outros faria com que todos se importassem menos sobre quanto os outros se importam. Confuso, mas fazia sentido. 

Não sei se por estar bêbada, por concordar ou por não transar havia dois meses, ela resolveu ficar com ele. Ele não era feio, ela já tinha bebido o suficiente e a conversa estava ficando cada vez mais chata. Ignorou o que ele falava (não se deu nem ao trabalho de fingir que ouvia) e disse que ia ao banheiro e que ele deveria aparecer por lá em dois minutos. A cara de Alê se transformou num misto de incompreensão e satisfação. Acho que ele estava em dúvida se conseguiu o que queria ou talvez se perguntasse o que fez para conseguir. 

Jéssica entrou no banheiro, tirou a calcinha por baixo da saia e guardou na bolsa. Retocou o batom, arrumou o cabelo e, nesse momento, ele bateu à porta. Abriu, puxou Alê para dentro e fez o que ela queria. Antes que ele pudesse gozar, ela já tinha aproveitado o orgasmo e estava saindo. 

Com passos rápidos e decididos, foi para fora do bar e pegou o primeiro taxi que viu, direto pra casa. Alê que se virasse sozinho com a conta do bar, a vontade de gozar e as lembranças do que ela fez. É isso que cachorros merecem. 

Jéssica poderia jurar que nunca mais encontraria Alê, mas o tempo passou e a vida pregou uma dessas peças que jamais entendemos. Dois meses depois, sentada sozinha em um bar, esperando algumas amigas atrasadas, ela vê Alê se aproximar e sentar à mesa. 

“Oi” – ele disse – “eu já não te conheço de algum lugar?”. Jéssica dá uma risada. Sem dizer nada, levantou da mesa, pegou a bolsa e foi em direção ao banheiro retocar a maquiagem. Entrou e encostou a porta, sem trancar. Não demorou para ele bater. Abriu apenas uma fresta e, antes de fechar, disse olhando em seus olhos: Eu já não te ignoro de algum lugar?

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