Respire, já é quarta


Você acorda cansado. Exausto na verdade. Você acorda e se cansa de ter que acordar. Você se levanta cansado. Você se cansa da cama bagunçada e de ter que arrumá-la pra depois bagunçá-la novamente. Você se cansa do rosto no espelho, da barba mal feita, da sobrancelha mal desenhada. Você se cansa do noticiário, se cansa das noticias, das guerras, das mortes, dos assaltos, dos ganhadores da mega-sena. Você se cansa de não ser um deles. Você se cansa do trânsito, dos prédios, da fumaça, dos atletas amadores que correm com os cachorros. Você se cansa das portas, dos bom-dias, dos sorrisos falsos. Se cansa dos apertos de mão, dos “quer um cafezinho, água, ou refresco?”, dos papeis. Você se cansa das mulheres que reparam demais. Dos homens que não dão sossego. Você se cansa da comida que demora e queima a boca, do refrigerante sem gelo. Você se cansa do cigarro entre os dedos, se cansa de retocar o batom. Você se cansa de ter que ir e vir, voltar pra casa para voltar ao trabalho e depois para casa. Você se cansa das despedidas, do elevador quebrado. Você se cansa das luzes no vizinho da frente, das crianças no andar de cima. Você se cansa do café frio, da comida requentada. Se cansa da novela, das pessoas fúteis, dos comerciais. Se cansa do alaranjado da escova de dentes. Você se cansa do livro. Se cansa da rotina, se cansa do dia. Você dorme cansado. E ai você acorda cansado. Exausto na verdade. Mas você continua vivendo assim, cansado, até que um dia a vida se canse de você.

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