Confesso, mas preciso dizer...


Quando eu era mais novo, costumava romantizar a paixão que faz sofrer. Sabe aquele tipo de paixão pela qual você tem que lutar? ...Que embrulha o estomago e te causa dependência... esse tipo de paixão. Acreditava no sacro ofício/sacrifício da paixão. Acreditava que o caminho árduo do ofício sagrado, que era lutar por alguém, me levaria ao amor sublime. Amor que só os maiores autores de romance puderam vivenciar ou criar. Mas descobri, aos trinta, que não existe. Descobri que o embrulho no estomago é de rejeição mesmo. Teu corpo sabe que aquilo não te faz bem e está implorando para manter distância.

 Quando eu era adolescente, gostava de uma menina que morava perto de casa. Cheguei até a indicá-la para uma vaga de emprego, uma vez – conto isso apenas por contar, fiz porque queria que ela convivesse comigo. Mas antes de mim, a fila dela era extensa. Bem extensa. Após 4 anos de insistência, e só depois de ela se mudar de cidade, começamos a namorar. Cara, ela era minha vizinha..., mas só quis namorar comigo quando estava morando a mais de 3 horas da minha casa. Enfim, eu quem a pediu em namoro, né? Só que com o tempo, eu me dei conta de que ela não era o que eu esperava. Me dei conta de que eu nem a conhecia. Sabe o que aconteceu? Não estava mais feliz com aquele relacionamento. Mas também não queria terminar, porque achei que precisava de mais tempo para ter certeza. A única certeza que eu passei a ter era a de que eu não gostava dela – as vezes; em outras vezes eu gostava. Eu detestava as atitudes dela, detestava as conversas, detestava o encaixe quando dormíamos juntos, detestava ter que visitá-la aos finais de semana... e nem o sexo era bom o suficiente – eu ainda não tinha muitos parâmetros, mas sabia que não era bom. E não falo isso porque esperava que ela fosse uma profissional do sexo. Até porque acho – tenho certeza – de que ela era muito mais experiente que eu. Eu não gostava do sexo, porque não gostava dela. Nunca fui desrespeitoso, mas já estava naquele ponto em que começamos a ver defeitos até mesmo no corpo da pessoa. Procurava defeitos mínimos para embasar o desgosto. Ela possuía um corpo maravilhoso, mas pra mim, aquilo já não significava nada. Dizem que o amor é cego. Talvez seja. Mas ele não é surdo... o amor – o meu amor – precisa ouvir. Eu não ouvia nada. Não via nada. Não sentia nada.

Fatidicamente fui perdendo o interesse. Na verdade, eu já estava perdendo desde o “sim” que ela deu para o meu pedido de namoro. Eu estava, de fato, demonstrando desinteresse. Velado, confesso. Mas era fácil perceber.

Um dia ela me inquiriu quanto a isso. Quis discutir o meu desinteresse... discutimos. Ela argumentou. Eu argumentei. Acho que ninguém queria ouvir... queríamos ter razão.  E por fim, ela me disse:

– Insistiu tanto pra me ter, agora age assim?

De toda a discussão, foi a única coisa que eu ouvi. Ouvi tão bem. Memorizei. Passei algumas noites pensando em tudo o que fiz para ficar com ela. Fiquei me perguntando se eu deveria mesmo me recriminar por me decepcionar. Por ter minhas expectativas frustradas. Por me frustrar... só porque eu insisti, deveria manter? Será?

Não comentei, mas eu só a via aos finais de semana. Ou seja, eu tive uma semana para refletir sobre isso. Eu refletia e via meu reflexo triste.

“Só porque eu insisti, devo manter?”

Por que ela pensava assim? Por que as pessoas pensam assim?

Sabe o que é mais engraçado? Uma vez ela me disse que gostava de se gabar para os parentes e amigos. Gostava de contar tudo o que eu tinha feito para estar com ela. Parece lindo, né? Mas isso só aumentava a cotação dela. Não a minha – pelo menos na minha concepção. Eu só queria me sentir valorizado pelos atos de serviço, e ouvir umas palavras de afirmação. Nunca aconteceu. E ela? Ela queria continuar recebendo os atos de serviço e ouvindo palavras de afirmação. Me disse uma vez: “se você ama, tem que fazer sem esperar nada em troca”. Frase idiota! Ou talvez eu nunca tenha amado.

Terminamos. Era inevitável.

Ela pegou uns e-mails meus para uma moça que eu conheci na internet, e eu peguei umas SMS que ela trocava com um rapaz que ela conheceu no metrô.

Eu aleguei que nunca tinha me encontrado com a moça.

Ela alegou que ele era só amigo – hoje eles são casados...

Nunca confessei a traição, mas vou registrar aqui: na época, beijei três pessoas. Me apaixonei por uma delas. Continuamos saindo após o término. Ela, a moça com quem eu saia, foi quem insistiu pra ficar comigo. Ela sempre soube do meu relacionamento, mas nunca se importou. Queria que eu terminasse e assumisse algo com ela. Acho que ela teve essa esperança por muito tempo. Mas parece que a corrente de sofrer e fazer sofrer é forte demais pra ser ignorada. Um dia, assim como eu antes com a namorada, essa moça também se cansou de mim. Talvez tenha concluído que eu não valia todo aquele esforço. Talvez esperasse mais... talvez quisesse reconhecimento, retribuição, umas palavras de afirmação e uns atos de serviço. Talvez.

O que me leva a concluir: não vale a pena se esforçar demais. O que é pra ser, vai ser. As estrelas se alinham, o vento é oportuno, a maré é favorável... tudo conspira a favor. Mesmo que o fim seja trágico, o amor vai ter valido a pena.

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