Histórias de amor que quase duram 90 minutos


Depois de não sei quanto tempo ali sentados, a música começou a tocar... Na verdade eram as músicas, e as luzes acenderam, a roda-gigante, que deveria estar lá, já teria concluído a volta e um homem abriria o portãozinho de ferro para que os casais saíssem. Talvez nós tivéssemos saído também. Será que saímos? Tenho a impressão de lembrar tão bem, e é tão fácil lembrar: a mão do homem abrindo o portãozinho de ferro para que nós saíssemos. Depois eu vi o seu cabelo molhado, e ao mesmo tempo você viu o meu cabelo molhado, e ao mesmo tempo ainda dissemos um para o outro que precisávamos ter muito cuidado com cabelos molhados, e pensamos vagamente em secá-los, mas continuava a chover. Estávamos tão molhados que era absurdo pensar em sairmos da chuva. Às vezes, penso se não cheguei a estender uma das mãos para afastar o cabelo molhado da sua testa, mas depois acho que não cheguei a fazer nenhum movimento, embora talvez tenha pensado. Acho que devo ter segurado tuas mãos. Você lembra? Não consigo ver mais que isso: essa é a lembrança. Além dela, nós conversamos durante muito tempo na chuva, até que ela parasse, e quando ela parou, você foi embora. Me deu um abraço apertado e foi embora. Disse: até a próxima! - acho que foi isso.
Além disso, não consigo lembrar mais nada, embora tente desesperadamente acrescentar mais um detalhe, mas sei perfeitamente quando uma lembrança começa a deixar de ser uma lembrança para se tornar uma imaginação. Talvez se eu contasse a alguém devesse acrescentar ou valorizar algum detalhe, assim como quem escreve uma história e procura ser interessante - seria bonito dizer, por exemplo, que eu ficava olhando teu sorriso enquanto o álcool preenchia os capilares do meu rosto... que eu sequei lentamente seus cabelos quando chegamos em casa. Ou que as ruas e as árvores ficaram novas, lavadas depois da chuva. Mas não direi nada a ninguém. E quando penso, não consigo pensar construidamente, acho que ninguém consegue. Mas nada disso tem nenhuma importância, o que eu queria te dizer é que chegando na janela, há pouco, vi a chuva caindo e, atrás da chuva, difusamente, uma roda-gigante. Parece realmente estar lá. E que então pensei numas noites em que você sempre vinha, e numa noite em especial, não sei quanto tempo faz, e que depois de pensar nessa noite e nessa chuva e nessa roda-gigante, uma frase ficou rodando nítida e quase dura no meu pensamento. Qualquer coisa assim: depois daquela nossa conversa - depois daquela nossa conversa na chuva, você nunca mais me procurou.

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