Uma sensação boa a seu respeito

As cartas continuam sem resposta. Já faz quanto tempo desde o nosso encontro? Um dia? Um ano? ...já não sei mais. Os dias têm se arrastado. Eu olho sua foto, quase apagada, no porta-retratos, ali, ao lado da cama. Teus cabelos cacheados, você sorrindo... Nem parece real. Foi a imagem que capturei de outra vida. Andávamos de mãos dadas pelo cosmos antes de voltarmos aqui. Eu me lembro. Transcorremos e transcendemos o espaço e tempo. Éramos brisa e orvalho, cobrindo as colinas de flores e relva. Eu me lembro. Só não me lembro da sua forma. Não tínhamos forma. Existíamos como partículas divinas, na eternidade. Mas eu via o seu sorriso e seus cabelos. Era ele, seu sorriso, que despontava no horizonte nas primeiras horas da manhã. Os homens, há muito tempo, o apelidaram de aurora. O que eles viam era uma ínfima parte do espetáculo que era. Tinha o poder de iluminar todas as encostas escuras da minha alma. Era calor, fogo, vida... criava onde nada havia. Era você, bem ali, entre a ordem e o caos, fluindo dentro de mim, mesmo quando nem havia dentro. Eu sinto. Eu lembro. Enquanto escrevo, meu coração se expande porque se preenche dessas partículas tuas, espalhadas pelo universo. É o que restou de ti. O que restou, desde que você assumiu forma. Desde que assumimos formas.

Espero que as cartas consigam te fazer lembrar que somos causa e efeito; que somos ação e reação.

Espero que possamos dar continuidade na obra etérea que começamos.

Espero que seja antes que sua foto se apague de vez e eu não consiga mais lembrar de você. Antes que me reste apenas aquela sensação de que em algum lugar existe alguém. 

Uma sensação de esperança.

Aquela sensação boa a respeito de alguém – a seu respeito.

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