Além do que você vê, além do que você lê.
Chovia, chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dela. Sem guarda-chuva nem nada - eu sempre perdia todos pelos bares; só uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito. Parece falso dito desse jeito, mas bem assim eu ia no meio da chuva. Eu enfiava as mãos avermelhadas nos bolsos e ia indo. Eu ia pulando as poças d’água com as pernas geladas; tão geladas as pernas e os braços e a cara, que pensei em abrir a garrafa para beber um gole. Mas não queria chegar meio bêbado na casa dela; hálito ardido, eu não queria que ela pensasse que eu andava bebendo. E eu andava. Todo dia eu tinha um bom pretexto. E fui pensando também que ela ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando sem táxi naquela chuva toda. E eu andava. Estômago dolorido, e eu não queria que ela pensasse que eu andava insone. E eu andava. As roxas olheiras... teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, para que ela não visse que estavam cortados do frio e pensasse que eu andava relaxado, sem comprar ao menos uma manteiga de cacau. E eu andava. E tudo que eu andava eu não queria que ela visse nem soubesse. Mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ela soubesse que eu era eu. E eu era.
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