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Mostrando postagens de abril, 2023

As vezes no silêncio da manhã

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Lembro que naquela manhã abri os olhos de repente, olhavava aquele teto claro, com algumas teias de aranha nos cantos. Minha mão buscou você, mas tocou um espaço vazio ao meu lado sobre a cama, e não encontrando, procurou um cigarro no maço sobre a mesa; virou o despertador de frente para a parede e depois buscou um fósforo. Acendi uma chama e fumei, fumei e fumei: Meus olhos fixos naquele teto claro. O ano você deve imaginar... chovia muito e os jornais alardeavam enchentes. No centro, os carros eram carregados pelas águas, os ônibus deixavam de operar e nas praias o mar explodia alto respingando pessoas amedrontadas. A minha mão direita conduzia espaçadamente um cigarro até minha boca: minha boca sugava uma fumaça áspera para dentro dos pulmões escurecidos: meus pulmões escurecidos lançavam pela boca e pelas narinas um fio de fumaça em direção ao teto claro onde meus olhos permaneciam fixos. E minha mão esquerda ainda tocava aquela ausência sobre a cama. Eu estava sozinho...

Date? Não... É uma reunião.

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“Eu já não te conheço de algum lugar?” – foi assim, sentada num bar no sábado à noite, ouvindo a mais clichê e mentirosa das cantadas, que Jéssica conheceu Alexandre.  Alexandre era um tipo comum, mas com algumas ideias genuinamente diferentes, ainda que sua introdução tenha dito o contrário. Apesar de pseudomisterioso, tinha uma visão sobre a vida que chamou atenção de Jéssica, tanto pelas peculiaridades, quanto pelos absurdos. Alê, como passou a chamá-lo depois de alguns poucos minutos, achava que as diferenças básicas entre humanos e cachorros eram o ego, o humor e a capacidade de disfarçar as reais intenções. E, não por acaso, acreditava que essas intenções eram alimentar o ego, rir e transar.  Se a ideia de Alê era disfarçar suas intenções, ele começou muito mal. As de Jéssica, porém, só ela sabia: queria beber e se divertir vendo se todo aquele papo dele conseguiria fazer com que transassem. Inclusive, ela queria beber exatamente para esquecer como esses papo...

Se mentir pra me fazer sorrir, tudo bem.

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Cometa bobagens. Não pense demais porque o pensamento já mudou assim que se pensou. O que acontece normalmente, encaixado, sem arestas, não é lembrado. Ninguém lembra do que foi normal. Lembramos do porre, do fora, do desaforo, dos enganos, das cenas patéticas em que nos declaramos em público. Cometa bobagens. Dispute uma corrida com o silêncio. Não há anjo a salvar os ouvidos, não há semideus a cerrar a boca para que o seu futuro do passado não seja ressentimento. Demita o guarda-chuva, desafie a timidez, converse mais do que o permitido, coma melancia e vá tomar banho de rio. Mexa as chaves no bolso para despertar uma porta. Cometa bobagens. Não compre manual para criar os filhos, para prender o gozo, para despistar os fantasmas. Não existe manual que ensine a cometer bobagens. Não seja sério; a seriedade é duvidosa; seja alegre; a alegria é interrogativa. Quem ri não devolve o ar que respira. Não atravesse o corpo na faixa de segurança. Grite para o vizinho que você não ...

Respire, já é quarta

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Você acorda cansado. Exausto na verdade. Você acorda e se cansa de ter que acordar. Você se levanta cansado. Você se cansa da cama bagunçada e de ter que arrumá-la pra depois bagunçá-la novamente. Você se cansa do rosto no espelho, da barba mal feita, da sobrancelha mal desenhada. Você se cansa do noticiário, se cansa das noticias, das guerras, das mortes, dos assaltos, dos ganhadores da mega-sena. Você se cansa de não ser um deles. Você se cansa do trânsito, dos prédios, da fumaça, dos atletas amadores que correm com os cachorros. Você se cansa das portas, dos bom-dias, dos sorrisos falsos. Se cansa dos apertos de mão, dos “quer um cafezinho, água, ou refresco?”, dos papeis. Você se cansa das mulheres que reparam demais. Dos homens que não dão sossego. Você se cansa da comida que demora e queima a boca, do refrigerante sem gelo. Você se cansa do cigarro entre os dedos, se cansa de retocar o batom. Você se cansa de ter que ir e vir, voltar pra casa para voltar ao trabalho e...

Sonho de uma tarde de outono

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  E se nunca precisássemos nos conhecer? Eu passaria a vida inteira tentando desvendar esse mistério. Conversaríamos nus, na cama, olhando o teto. Meus dedos e os teus tocando-se nas pontas, buscando absorver os segredos ocultos na malha da alma. Tua boca encontraria a minha, falaríamos a mesma língua e criaríamos uma nova, misturando a nossa. Eu seria Ninrode e você Semíramis, ambos buscando alcançar as nuvens. Reescreveríamos a história das constelações... O universo dos teus olhos seria a nossa realidade. Eu caminharia tua pele láctea, visitando cada estrela dessa constelação. Honraríamos todos os deuses: Febo, com sua poesia; Dionísio, com o vinho e Febe, dançando ao luar... tomaríamos as estradas mais sinuosas, curso de belas praias e cachoeiras. Eu me sentaria na tua garupa e você no meu passageiro. Minhas mãos na tua cintura e tua mão segurando a minha. Eu acreditaria que meu propósito nesse mundo é viver cada segundo como se fosse o último. Transaríamos sob a luz turva de a...

Oportunidades

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#Juliana  Juliana não procurava necessariamente um namoro, mas queria encontrar um cara legal. Nos finais de semana, um de seus maiores prazeres era ir à praia sentir a brisa no rosto e analisar as pessoas. Gostava de reparar nos cabelos, pele e expressões, e tentar imaginar o tipo de vida que elas tinham. Começava tentando desvendar a profissão e evoluía para os relacionamentos e a personalidade. Sentia falta de alguém para compartilhar suas certezas.  Apaixonada por cinema, Juliana costumava assistir comédias românticas e achava os filmes intelectuais muito chatos. Parecia um paradoxo, já que adorava reparar em comportamentos, mas seu interesse em ver filmes era aquietar os pensamentos. Questionamentos despertam a mente e nos fazem acordar dos sonhos, e Juliana queria apenas entrar na fantasia e ter alguém para dividir a pipoca e fazer carinho nas mãos. Suas unhas eram um pouco compridas e gostava de passá-las levemente na pele e ver os pelos eriçarem. Juliana pr...

Espere o trânsito passar

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Você volta, mas não volta. Não há confusão, é tudo muito bem comunicado. Mantem as fotos penduradas no varal com prendedores velhos, e esconde as cartas debaixo do colchão. Você volta sem precisar dar a volta. Você volta porque eu estou a sua volta. As mesmas palavras gentis, o romance de Belle Époque e o ar frio do outono. Tal qual Píramo e Tisbe, sendo você o muro que impede nossa felicidade. Já fugimos antes, nosso trágico fim, conhecido, tornou-se tela em sangue. Não há divindade conhecida que derrame bençãos em nossos votos – por isso nunca fizemos? Eu leio nas estrelas o sofrimento dos anos vindouros, mas o licor amargo dos teus lábios tem o poder de adormecer meu espírito tão inquieto. Estou dependente. Melhor dizendo: estou abstido. Nunca fará sentido. Talvez nem precise fazer. Apenas segure minhas mãos enquanto dirijo por essa estrada incerta, a canção no rádio e minha voz macia serão suficientes para te enganar.