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Mostrando postagens de maio, 2023

VERBA VOLANT SCRIPTA MANENT

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Reconheço, estou em desequilíbrio, estou me distanciando cada vez mais. Faço este esforço até quem sabe alcançar um ponto tão remoto que não saberei jamais encontrar o caminho de volta, se existe um, e penso que não. Ao pé da escada ela me espera, braços abertos, parada sobre o tapete. Tem o peito largo, sinto, ao afundar de encontro a ele essa parte minha sem forma a que acostumei chamar de face, seus braços podem dobrar-se apertando minhas costas enquanto sinto seu cheiro, esse cheiro espesso de sal, algas, corais, medusas, águas-marinhas. Quero perder-me nela, como o que nunca terei... fecho também meus braços em torno de suas costas, aproximando-a de mim para que nossos dois corpos se confundam, para que nossos cheiros se misturem, para que pelo menos por um segundo sejam, eu, ela, uma coisa única...

Confesso, mas preciso dizer...

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Quando eu era mais novo, costumava romantizar a paixão que faz sofrer. Sabe aquele tipo de paixão pela qual você tem que lutar? ...Que embrulha o estomago e te causa dependência... esse tipo de paixão. Acreditava no sacro ofício/sacrifício da paixão. Acreditava que o caminho árduo do ofício sagrado, que era lutar por alguém, me levaria ao amor sublime. Amor que só os maiores autores de romance puderam vivenciar ou criar. Mas descobri, aos trinta, que não existe. Descobri que o embrulho no estomago é de rejeição mesmo. Teu corpo sabe que aquilo não te faz bem e está implorando para manter distância.  Quando eu era adolescente, gostava de uma menina que morava perto de casa. Cheguei até a indicá-la para uma vaga de emprego, uma vez – conto isso apenas por contar, fiz porque queria que ela convivesse comigo. Mas antes de mim, a fila dela era extensa. Bem extensa. Após 4 anos de insistência, e só depois de ela se mudar de cidade, começamos a namorar. Cara, ela era minha v...

Desabafo 17/05/2023

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Não herdei os olhos de minha mãe, nem o nariz. Herdei os ouvidos. Tentar entender onde tudo começou, às vezes é chegar ao fundo do poço. Amêndoa poderia ser somente uma palavra que ainda teria gosto. Consegue sentir? A palmeira faz contas debaixo da casca. Se chegar bem perto vai conseguir ouvir. Sinto falta de me reclinar ao mar com dois travesseiros de vento. Da janela do carro podia sentir que a mão sem anel é mais lenta. Costumava viajar bem antes da bagagem. Aos 30 anos, já não tenho força para chamar meu grito de volta. Mesmo se o rio escutasse, ele não retornava. A casa em que se dorme fica acordada no sangue. Ultimamente abro um livro como quem descobre um sótão escondido na casa nova. Eu me iniciei em telhados. A uva que não virou vinho é uma amiga infiel. Não me obedeço. Os braços são lâmpadas sem paredes. As pedras deveriam dizer tudo o que pensam para as sombras. Quando quero morrer, me tranco no quarto do apelido e não atendo pelo nome. Minha memória se acostum...

Engula as tuas palavras, meu bem!

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Não sei o que é mais perturbador: aquele que se sente incomodado e discute a todo momento ou o que atravessa a tempestade verbal sem nenhuma alteração de humor. Já fui os dois, mas ainda arco com a indecisão sobre qual tipo ajuda mais na resolução de conflito. Não tenho a resposta, até porque resposta nem sempre é solução. Qual o perfil mais agradável: o que debate sem parar ou aquele que não debate nunca? O que chora ou o que não chora jamais? O que se desespera nas divergências ou quem vira as costas, bate a porta e foge de qualquer conversa séria? O que se mostra muito interessado em tudo o que se vive dentro do relacionamento, corrige os problemas na hora, sofre horrores para se fazer entender ou o que despreza os aborrecimentos diários, não alimenta a fogueira das palavras e larga discussões com a confiança intacta, como se nada tivesse acontecido? Não venha concluir que é o meio-termo, o meio-termo não é uma realidade amorosa. Gostaria de entender qual dos extremos te...

Não são apenas respostas

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Se você parar pra analisar, descobrirá que as coisas e as pessoas só o são em totalidade quando não existem perguntas, ou quando as perguntas não são feitas. Que a maneira mais absoluta de aceitar e conhecer alguém ou alguma coisa, seria justamente não falar, não perguntar - mas ver, com calma e sem pré-conceitos. Ver em silêncio. As perguntas não servem para conhecer a outra pessoa, mas para saber quem você é para ela ou mostrar quem você é. O que faz nascer as perguntas não é uma necessidade de conhecimento, mas de ser conhecido.

Uma sensação boa a seu respeito

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As cartas continuam sem resposta. Já faz quanto tempo desde o nosso encontro? Um dia? Um ano? ...já não sei mais. Os dias têm se arrastado. Eu olho sua foto, quase apagada, no porta-retratos, ali, ao lado da cama. Teus cabelos cacheados, você sorrindo... Nem parece real. Foi a imagem que capturei de outra vida. Andávamos de mãos dadas pelo cosmos antes de voltarmos aqui. Eu me lembro. Transcorremos e transcendemos o espaço e tempo. Éramos brisa e orvalho, cobrindo as colinas de flores e relva. Eu me lembro. Só não me lembro da sua forma. Não tínhamos forma. Existíamos como partículas divinas, na eternidade. Mas eu via o seu sorriso e seus cabelos. Era ele, seu sorriso, que despontava no horizonte nas primeiras horas da manhã. Os homens, há muito tempo, o apelidaram de aurora. O que eles viam era uma ínfima parte do espetáculo que era. Tinha o poder de iluminar todas as encostas escuras da minha alma. Era calor, fogo, vida... criava onde nada havia. Era você, bem ali, entre ...

Torradas com mel me resumem?

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Sábado de sol, pássaros cantando e brisa amena. Um dia lindo e clichê, ainda que eu não me lembre exatamente de como são os dias clichês. Nunca reparei muito no tempo. Este é um dia especial.  Sentado em minha cama, de pijama, releio (ainda atônito) minha carta de aprovação no emprego em uma das mais criativas e conceituadas agências de publicidade. É um passo largo em direção ao meu sonho. Estou radiante; este é meu último dia de folga e decido torná-lo tão especial quanto minha vida será. Para começar, um desjejum na cafeteria que vende as melhores panquecas que já comi em toda minha vida. Inesquecíveis. Este é um grande dia!  As panquecas eram inesquecíveis, mas a localização da cafeteria não. Ando muito até achar o lugar; as ruas parecem diferentes e tenho que descansar algumas vezes antes de encontrá-lo. Nada vem sem esforço.  Entro e o garçom acena com a cabeça. “Mesa de sempre, Sr. Frederico?”. Mesa de sempre? Não me lembro de ter uma “mesa de sempre”… ...

Na minha humilde residência

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Ele havia se mudado recentemente para novo endereço, nem ao menos teve tempo para mobiliá-lo. Foi justamente nessa época que um infortúnio lhe pegou de surpresa: foi demitido de uma multinacional onde exercia a função de supervisor de alguma coisa. Percebendo que um grande período de ócio se aproximava e, consequentemente, uma iminente época de austeridade financeira, resolveu que gastaria seu dinheiro apenas com a contratação e manutenção de um provedor de internet, o único bem que, julgava ele, era necessário para manter uma vida minimamente digna. O resto do dinheiro do acerto (FGTS, seguro-desemprego, etc.), bem como suas economias, seriam objeto de rigorosa contenção. O plano era perfeito: previa ele que, embora seu novo imóvel não guarnecesse nenhum bem, as únicas coisas necessárias seriam um notebook, um modem, e uma conexão de internet. Comida e bebida? Simples, ele contaria com a caridade de vizinhos próximos (afinal, precisaria ele economizar o máximo possível d...

Histórias de amor que quase duram 90 minutos

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Depois de não sei quanto tempo ali sentados, a música começou a tocar... Na verdade eram as músicas, e as luzes acenderam, a roda-gigante, que deveria estar lá, já teria concluído a volta e um homem abriria o portãozinho de ferro para que os casais saíssem. Talvez nós tivéssemos saído também. Será que saímos? Tenho a impressão de lembrar tão bem, e é tão fácil lembrar: a mão do homem abrindo o portãozinho de ferro para que nós saíssemos. Depois eu vi o seu cabelo molhado, e ao mesmo tempo você viu o meu cabelo molhado, e ao mesmo tempo ainda dissemos um para o outro que precisávamos ter muito cuidado com cabelos molhados, e pensamos vagamente em secá-los, mas continuava a chover. Estávamos tão molhados que era absurdo pensar em sairmos da chuva. Às vezes, penso se não cheguei a estender uma das mãos para afastar o cabelo molhado da sua testa, mas depois acho que não cheguei a fazer nenhum movimento, embora talvez tenha pensado. Acho que devo ter segurado tuas mãos. Você lem...

Eu encontrei ela no Tinder

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Ninguém sabe muito bem como tudo começou, mas foi muito tempo atrás. Advindos (ou não) dos macacos, os seres humanos surgiram com duas das suas principais características: a vontade de comer e a vontade de transar. No começo, tudo era cru. O homem ainda não havia descoberto como controlar o fogo e não existia nenhum tipo de organização. Desta forma, para comer, contava simplesmente com a força. E com um pouco de sorte. Mas o homem evoluiu. Lentamente. E alguns começaram a perceber que era possível controlar e preservar seu fogo. Como consequência, passaram a comer melhor e de maneira menos aleatória.  Surgiram, assim, a fogueira e as vaidades, que permitiram aos dominantes se alimentar como nenhum outro. Mas o homem nunca está satisfeito. Ele quer sempre comer mais. Por isso, a sociedade se organizou e transformou a fogueira em fogão a lenha. Essa mudança permitiu que o homem abandonasse a caça e passasse a se dedicar às ciladas. Para tanto, começou a construir armad...